SEM DIZER ADEUS
-Tahyane Rangel-
Há poucos anos atrás na véspera de Natal, resolvi dar mais uma verificada nos emails, já eram 22:00 horas, neste momento recebi um email de alguém que estava extremamente triste e solitário pela perda recente da noiva, por doença incurável.
Respondi de imediato, tentando dentro do que me era possível ajudar, minimizar aqueles momentos que tenho consciência plena: são infinitamente tristes para alguém.
A resposta voltou de imediato e assim passei 2 horas daquela véspera de natal, trocando emails instantâneos e parece que consegui naquele momento, ajudar de alguma forma.
A parti de então, trocávamos emails e eu via a cada dia que o tempo aliava-se ao conforto de parentes e amigos para a superação desta perda.
O tempo passou, o assunto encerrou e recebia então emails de variados assuntos, pensamentos, informativos, piadinhas e mesmo aqueles emails chatérrimos desforra de times de futebol, e similares.... Pouquíssimas vezes retornava resposta, face ao teor dos mesmos, e como não repasso emails, eles eram para mim como uma noticia diária, de que ele estava bem e a seguir eram devidamente deletados.
Nos natais subseqüentes trocávamos emails natalinos personalizados, não eram páginas e nem mensagens enfeitadas ou de repasse, eram diretos votos de feliz natal e ano novo, alguma coisa bem sincera e natural que ficou através desse tempo que nos conhecemos.
E assim o tempo seguia, soube que já tinha casado e mais recentemente recebia emails com fotos fofíssimas do neném que chegara, estes vinham molhados de "baba" e eu ficava feliz em ver como tudo se renova, a vida explodindo em movimento contínuo, o tempo não para e a vida "vive" plena queiramos ou não.
Recentemente senti falta daqueles emails diários, nos primeiros 5 dias eu pensava que podia ser alguma impossibilidade, problemas no micro, ou quem sabe pequena viagem, pequenas férias...
Passados vinte dias imaginei que podiam ser férias de fato, uma viagem fora do país, ou coisa do tipo, e assim os dias foram se passando. Depois de um mês, nada de notícias, nada de emails "engraçadinhos" nada de emails "sem graça", nada...
Seguia minha rotina, mas sempre que ia verificar os emails a ausência do seu email era uma presença marcante e me fazia questionar o que poderia ter acontecido.
Finalmente tive noticias dele, de uma forma que jamais poderia imaginar: e eu que não costumo ver TV... não sei porque nesse domingo resolvi dar uma olhada no fantástico, por ironia conhecido como fantástico show da vida.
Vi tua imagem na tela, e no primeiro momento não atentava que era você, noticiava sobre um homem que teve a vida tirada por motivos ignorados, fato que levou a repercussão na mídia.
Vi tua imagem caída no chão, sem atentar que era a tua, os quadro foi passando, depois apareceu a tua imagem rindo, cheio de vida, mostrava um gigante, falaram o teu nome e foi nesse momento, entre o impacto e o torpor que tive notícias tuas.
Fique chocada, impassível olhando tua imagem rindo pra mim na TV. Na minha mente rapidamente passavam os emails que recebia, lembrei do primeiro contato, e mais recentemente das fotos do fofíssimo bebe.
Não tenho pudores em dizer que mesmo sendo espírita e espiritualista convicta, a "morte" consegue me abater, mesmo tendo certeza que a alma não morre, a "morte" é um impacto perverso para quem aqui fica, pela saudade que deixa pela sensação de perda e impotência, por termos a convicta ilusão que alguém se esvai juntamente com o corpo e principalmente porque sempre achamos que ela leva quem julgamos que deve ficar.
Esse é o mistério mais certo e imutável da criação divina, inquestionável, a regra é esta: começamos a caminhar para a partida no primeiro respirar.
Hoje, dia seguinte, ainda estou naquela fase entre o choque e o caminhar, ainda, volta e meia lembro da noticia, e imagens passeiam na mente.
Não sei porque isto te aconteceu, nem sei onde você está agora, não sei se você sabe o que te aconteceu e nem se sabe o porquê?... Só sei que você esta vivo, não sei mais nada...
Sei que um dia você vai saber deste meu escrito, é um desabafo, de alguém que até certo ponto resiste em aceitar o processo de renascimento da forma como ele é, alguém que questiona porque pessoa alegre, cheia de vitalidade, de bom coração tem que partir assim, de repente... E de certa forma uma homenagem que te faço, vou orar da forma que sei, conversando com meus amigos invisíveis, vou pedir que te ajudem no que puderem e como puderem, vou pedir para que eles te digam que a máxima de Deus ainda é perdoar e amar... Você vai entender, você vai ficar bem, porque é assim, e porque eu quero acreditar nisso.
Você continuará a ser um gigante, não do ring como você foi aqui, mas um gigante da vida, um gigante filho do amor de Deus. Fico com a tua imagem rindo como vi na tv, sem dizer Adeus...
27/01/2003 © Tahyane
|