JEJUM DE PREOCUPAÇÕES
Síntese de Palestra de Trigueirinho



Jejum pode ser uma prática mais ampla do que a simples abstinência de alimentos. Jejuamos também quando nos abstemos de determinados pensamentos, emoções, ações e palavras.
Às vezes precisamos jejuar de certos sentimentos negativos mais do que propriamente de alimentos ou de pensamentos, às vezes precisamos jejuar de palavras mais do que sentimentos, e assim por diante.


Se for inspirado pelo nosso mundo interior e isento de expectativas e ambições, tanto o jejum de alimentos quanto dos demais podem ajudar na nossa transformação, na purificação do organismo e até mesmo trazer saudáveis simplificações à vida.


Realizado com base nesses princípios de equilíbrio, o jejum de alimentos pode ter sobre o corpo físico repercussões de caráter espiritual, e não só terapêutico. Em certos casos, amplia a sua capacidade de acolher a energia da alma e de desimpedir-se de impurezas.


A opção pelo jejum de alimentos, porém, deve ser bem ponderada, pois nos dias de hoje o corpo físico da maioria das pessoas tem sido submetido grande desgaste não só pela atividade desorganizada e intensa da vida moderna, mas também pelo uso excessivo de aparelhos eletrônicos, pela saturação de ondas de radiofreqüência da atmosfera e, sobretudo, pela tensão psíquica. O Jejum de alimentos pode ser nocivo quando o corpo está debilitado ou sem reservas suficientes.


Contudo, este tipo de jejum é por demais benéfico quando há um sinal verdadeiro para faze-lo, um aviso evidente de que essa é a vontade do seu eu interior em determinado momento da nossa vida. É então feito por livre e espontânea vontade em oferta ao nosso eu interior, pois como vimos, se o corpo se purifica harmoniza-se com os níveis mais sutis do ser.


O Jejum pode desanuviar-nos e desse modo permitir-nos compreender melhor o que o espírito quer de nós. É uma oferta para evoluirmos, e não motivo para ficarmos fracos, nervosos ou carentes de substâncias necessárias à vida.


Com o passar do tempo, vamos vendo qual é para nós a melhor forma de jejum e, sempre que o repetirmos, atualizamos sua prática conforme o estado do nosso corpo, as condições em que nos encontramos, o impulso que nos leva a realiza-lo.


Se obedecermos aos sinais internos, podermos estar certos de que todas as nossas necessidades são supridas pela própria força interior que nos estimula a fazer o jejum. Tomadas as devidas precauções, tudo corre bem. Crescemos em consciência, evoluímos e melhoramos com a ajuda do eu interno, que escolheu esse caminho tão simples de purificação.


Se estivermos com boa saúde, a experiência do jejum de alimentos não nos enfraquece – mas se mesmo assim em determinados momentos percebemos que é preciso interrompe-lo, não há que hesitar.


Durante o jejum recomenda-se a ingerir mais água do que de costume, para hidratar o organismo. Ao finaliza-lo, é preciso cuidado especial. É que após o período de desintoxicação e de repouso do aparelho digestivo que o jejum proporciona, o organismo tem de readaptar-se ao processo de assimilação e de eliminação. Esse reinício de constar de alimentos bem leves,



OUTROS ASPECTOS DO JEJUM


Jejum pode significar também moderação, e não apenas abstinência. Se em nossa alimentação normal não somos levados pela gula, mas damos ao corpo físico somente o necessário para a sua subsistência, estamos jejuando. Essa busca de equilíbrio e sobriedade é jejum numa forma mais adequada aos dias de hoje, em que extremos quase raramente levam à harmonia.


Outro tipo de jejum é o da palavra, que consiste no seu controle. Há ocasiões em que precisamos abster-nos completamente de falar e outras em que devemos abster-nos apenas de palavras supérfluas; podemos portanto, estar falando e ao mesmo tempo jejuando de palavras


A intenção de purificar-nos quanto autêntica, cautelosa, persistente e tranqüila, constitui importante parte do jejum e determina seus resultados. Em alguns casos, essa intenção é suficiente para provocar na consciência mudança que em geral se conseguem pela abstinência ou pelo controle.


Cada um pode encontrar a sua forma mais equilibrada de praticar o jejum: abstinência total ou moderação, e em que grau. Importante é haver sinceridade de intenção, não haver vaidade em jogo e estar desapegado de resultados. E, quando perceber alguma maneira ainda mais luminosa de realiza-lo, não hesitar em mudar.


JEJUM DE BENS MATERIAIS



Como o jejum é uma via de equilíbrio para nos relacionarmos com a vida externa e a interna, podemos nos perguntar: “Como aplica-lo para encontrar equilíbrio na maneira de lidar com os bens materiais?”


O procedimento é o mesmo adotado no jejum de alimentos, no de sentimentos, no de pensamentos, no de ações e no de palavras. Algumas vezes jejuamos de bens materiais pela abstinência; outras pelo uso moderado ou pela austeridade.


Se alguém não recebeu do seu ser interior o impulso para desfazer-se de tudo, é porque essa não é a sua forma de jejuar. Provavelmente, se recebesse tal impulso, a personalidade – ou eu exterior – entraria em crise e deixaria de estar em harmonia com os propósitos superiores.


Quando alguém recebe a ordem interior de dispor de todos os seus bens, é porque está pronto para isto. Sabe que tanto para o seu caminho como para o serviço evolutivo é a atitude mais indicada. Sempre houve através dos tempos, os que agiram assim. Entretanto, esse não é o caminho da maioria.


Contudo, em qualquer circunstância é possível treinar a moderação. Podemos perguntar-nos: Utilizo os bens materiais para tornar a vida de meus semelhantes mais digna, menos desgastante? No dia a dia levo em conta que mais da metade da humanidade se encontra em estado subumano, sem teto, sem alimentação básica, sem higiene e sem educação? Trato com o devido respeito a água, a energia elétrica, as habitações e as coisas com que lido? Reflexões como essas ajudam-nos a não abusar dos bens materiais. E não abusar dos bens materiais é usa-los com desapego e, ao mesmo tempo, sem desperdício.


O comportamento normal da humanidade é ambicionar bens materiais, é tentar subtraí-los de outros visando benefício próprio, é acumulá-los. Mas quando uma pessoa os usa com sabedoria, boa vontade e intenção de acertar, sua atitude ajuda a compensar o egoísmo dos demais.


MODERAÇÃO



Para alguns a moderação é mais difícil que um período de abstinência total. Dizer palavras que sirvam de ajuda a outros, por exemplo requer mais treino que ficar completamente calado.


Em princípio, a moderação requer humildade, requer que sejamos verdadeiros conosco e que nos reconheçamos falhos em certas circunstâncias. Essa atitude leva-nos a pedir orientação ao nosso ser interior antes de fazer qualquer coisa. Se, pelo contrário, temos a nós mesmos em alta consideração, ficamos mais vulneráveis, pois deixamos de solicitar essa ajuda interna antes de agir.


Por outro lado, a moderação também requer ousadia. Precisamos levar em conta que, se estamos receptivos à luz interior, nossos recursos serão adequados, mesmo que imperfeitos. A sabedoria da Vida tudo ajusta quando estamos entregues à vontade do nosso ser interior, e até incluo as imperfeições da personalidade. Mas é preciso ousar fazer o que é para ser feito. Só damos passos realmente quando dos dispomos a ir um pouco além do que estaria ao nosso alcance.


É como se, por exemplo, alguém necessitasse ouvir determinada música e só nós estivéssemos disponíveis para cantá-la. Podemos não saber fazer isso muito bem, mas se o tentamos contando com a atuação do nosso eu interior, suas energias são transmitidas por nosso intermédio. E, assim, não importa se desafinamos um pouco – por temos cantado como serviço, profunda transformação pode dar-se na pessoa que nos ouve. No caso, a música em si é irrelevante; essencial é o impulso evolutivo, é saímos do ponto em que estamos e ajudamos o outro a fazer o mesmo.


Se buscarmos a moderação, reconhecemos que ousar não é agir irrefletidamente. É confiar no potencial que temos dentro de nós, entregando-o à condução do nosso ser interior. Ao agirmos permeados desse espírito, descobrimos o sentido de jejuar em ações, de atuar na justa medida para a luz Interna revelar-se.


Por último, a moderação requer desapego. Os resultados de ações evolutivas não são mensuráveis. Não existem parâmetros em nível mental, emocional ou físico para medi-los ou julga-los. É preciso realizar tais ações sem se prender a elas, agir como um semeador que lança os grãos na terra e os deixa entregues à chuva, ao vento, e a dinâmica da força de vida que há em seu ser interior.


















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Autor Copyright:
José Trigueirinho Netto
Publicação Editora Irdin
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